ANGOLA LITERÁRIA 2

Depois da leitura do Lobo Antunes, durante a FLIP de 2004 ouvi uma palestra de um escritor angolano chamado José Eduardo Agualusa. O Vendedor de Passados, publicado em 2004, foi o primeiro que li. Com um texto bastante poético, Agualusa escolhe um narrador inaudito, uma lagartixa, ou osga, como dizem os portugueses. A história também é bastante criativa: para satirizar o completo abandono de ideais que marcou o processo de redemocratização de Angola e a consequente tentativa de esquecer o difícil passado da guerra e da tortura, Agualusa inventa o albino Félix Ventura, um vendedor de passados elegantes e distintos para aqueles que podem pagar. Aos poucos o passado irrompe no presente como um pesadelo indesejado.
Trecho:
"- Félix Ventura. Assegure a seus filhos um passado melhor. - Riu-se. Um riso triste, mas simpático: - É o senhor, presumo? Um amigo deu-me este cartão.
Não consegui pelo sotaque adivinhar-lhe a origem. O homem falava docemente, com uma soma de pronúncias diversas, uma subtil aspereza eslava, temperada pelo suave mel do português do Brasil. Félix Ventura recuou:
- Quem é você?
O estrangeiro fechou a porta. Passeou pela sala, as mãos cruzadas atrás das costas, detendo-se um largo momento em frente ao belo retrato a óleo de Frederick Douglass. Finalmente sentou-se numa das poltronas e com um gesto elegante convidou o albino a fazer o mesmo. Parecia ser ele o dono da casa. Amigos comuns, disse, e a voz fez-se ainda mais suave, tinham-lhe indicado aquele endereço. Haviam-lhe falado num homem que traficava memórias, que vendia o passado, secretamente, como outros contrabandeiam cocaína. Félix olhou-o desconfiado. Tudo no estranho o irritava - os modos doces e ao mesmo tempo autoritários, o discurso irônico, o bigode arcaico. Sentou-se num majestoso cadeirão de verga, no extremo oposto da sala, como se receasse ser contagiado pela delicadeza do outro.
- Posso saber quem é você?
Também desta vez não obteve resposta. O estrangeiro pediu licença para fumar. Tirou do bolso do casaco uma cigarreira de prata, abriu-a, e enrolou um cigarro. Os seus olhos saltitavam de um lado para o outro, numa atenção distraída, como uma galinha ciscando entre a poeira. Deixou que o fumo se espalhasse e o cobrisse. Sorriu num inesperado fulgor:
- Mas diga-me, meu caro, quem são os seus clientes?
Félix Ventura rendeu-se. Procurava-os, explicou, toda uma classe, a nova burguesia. Eram empresários, ministros, fazendeiros, camanguistas, generais, gente, enfim, com o futuro assegurado. Falta a essas pessoas um bom passado, ancestrais ilustres, pergaminhos. Resumindo: um nome que ressoe a nobreza e a cultura. Ele vende-lhes um passado novo em folha. Traça-lhes a árvore genealógica. Dá-lhes as fotografias dos avôs e bisavôs, cavalheiros de fina estampa, senhoras do tempo antigo. Os empresários, os ministros, gostariam de ter como tias aquelas senhoras, prosseguiu, apontando os retratos nas paredes - velhas donas de panos, legítimas bessanganas - , gostariam de ter um avô com o porte ilustre de um Machado de Assis, de um Cruz e Souza, de um Alexandre Dumas, e ele vende-lhes esse sonho singelo."

